´ Perito e médico legista da Politec lança livro sobre mulas humanas

www.newscuiaba.com.br

/ Mato Grosso

23/04/2011 - 08h28

Perito e médico legista da Politec lança livro sobre mulas humanas

Fonte: Secom

Premiado internacionalmente em 2008 com o ineditismo do trabalho científico referente ao ataque de uma onça pintada à um pescador na região do Pantanal, o perito oficial e médico legista da Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec) de Cáceres, Manoel Francisco Campos Neto, agora apresenta um novo estudo científico transcrito em 170 páginas e transformado no livro: ‘Mulas Humanas’ no Narcotráfico Internacional Bolívia-Brasil.

 

A obra conta com 245 fotografias coloridas que mostram as mais variadas formas como as ‘mulas’ transportam a droga pelo corpo, no tráfico internacional de drogas em suas incessantes tentativas de ludibriar os defensores da lei. Para a elaboração do livro, Manoel mergulhou numa questão emblemática no seio da região situada na fronteira Oeste de Mato Grosso, que divide o Brasil da Bolívia em seus 983 quilômetros de fronteira seca e alagada.

 

 Um dos colaboradores da obra é Grupo Especial de Segurança de Fronteira (Gefron). Com apoio do segmento policial, o perito e médico legista Manoel Francisco recolheu informações técnicas em extensos cinco anos de pesquisa. “Cáceres hoje não é mais conhecida apenas como rota de traficantes, mas sim como referência em pesquisa sobre narcotráfico cuja peculiaridade é o acondicionamento da droga de forma artesanal, em invólucros incomuns que são ingeridos na tentativa de passarem despercebidos até mesmo sob o exame de aparelhos de raio x simples ou na tomografia”, disse o coordenador do Gefron, tenente-coronel PM Antônio Mário da Silva Ibanez Filho, no prefácio da obra científica.

 

O livro foi lançado no último dia do ‘I Congresso Internacional - Violência, o Tráfico e as Mulheres, Enfrentamento e Desafios’, evento realizado entre os dias 14 e 16 de abril pela Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh), no qual o profissional foi um dos palestrantes.

 

 Em entrevista, Manoel fala um pouco mais sobre a obra científica. Como surgiu a idéia de escrever o livro?

Sou plantonista do setor de Trauma e Emergência do Hospital Regional de Cáceres desde 2002, e ao longo desse tempo comecei a observar que em todos os meus plantões chegavam suspeitos de transporte de drogas na modalidade de cápsulas engolidas, que por diversas vezes foram detidos pelos policiais do Gefron. Observei também que a idade dessas pessoas variava, chegando inclusive a atender um adolescente de 16 anos. E em meus arquivos encontrei um laudo de necropsia de 2003 de uma pessoa que morreu por overdose devido à ruptura de uma das 16 cápsulas que havia engolido. Fiquei tão envolvido nas pesquisas, e sempre preocupado com o aumento de pessoas usadas como ‘mulas’, que resolvi escrever o livro.

 

Qual sua visão de Cáceres no contexto do narcotráfico no Brasil e no mundo?

Moro em Cáceres há mais de 30 anos, e nesse tempo o município sempre apareceu na mídia como uma das principais rotas de entrada de drogas em nosso país. Acredito que a fragilidade encontrada aqui também deve acontecer nos 11 municípios de fronteira do Brasil com a Bolívia.

 

Por que ‘mulas humanas: suicidas em potencial’?

A dose letal é de 1,2 gramas de cocaína para um indivíduo não usuário de drogas. Se cada cápsula engolida varia de 10 a 17 gramas, e se uma pessoa pode engolir até 98 cápsulas, se uma dessas cápsulas vier a romper essa pessoa terá morte imediata, então, ela será um suicida em potencial.

 

O que espera com a publicação do livro?

 

Toda pesquisa é embasada em dados técnicos-científicos e fatos reais, e com isso espero que os gestores públicos que terão acesso a esta leitura possam se conscientizar do perigo que a droga trás para nossa sociedade. Que as leis possam ser revistas e que tenha um envolvimento multi-internacional nas fronteiras, principalmente brasileiras.

 

De acordo com os dados levantados em sua pesquisa, o médico legista registrou do ano de 2005 a 2010, 101 mulas apreendidas na fronteira, sendo a maioria com cápsulas de cocaína ingeridas. Desses números, 60,80% são bolivianas que tentam entrar no Brasil com a droga e 39,20% são brasileiras.

 

“A minha intenção nunca foi fazer um trabalho policial, e sim buscar informações na área científica sobre o assunto que é preocupante. Não adianta tentarmos combater as drogas na cidade se o maior problema está nas fronteiras”, encerrou Manoel.

 

*Colaborou com a entrevista a jornalista Clarice Freitas, de Cáceres-MT.